Mesmo que saibamos que o sol não se põe, diz Anne Cauquelin em Invenção da Paisagem, dizemos pôr-se porque não podemos nos “afastar daquilo que a linguagem afirma com a exatidão do sentimento" (2009, p.32).
Se assim for, parece apropriado considerar que as imagens deste ensaio “silenciam”, mas também nos serviria considerar que “guardam em si muitos dos segredos do mundo”. O confronto com as cenas apresentadas aqui constitui um ponto de partida para a investigação do que pode, afinal, uma paisagem.
Pertencente a um cânone conhecido da história da arte e parte constitutiva da tradição fotográfica, esta categoria passa por um tratamento particular neste trabalho: não se trata de quantificar o potencial dialógico contido na sequência de imagens, mas, ao contrário, identificar seus mutismos.
Os galhos secos atravessam o quadro formando barricadas áridas. Touceiras de sempre vivas calam o consentido segredo dos mortos. O mar mudo, o sobrevôo sereno do pássaro que rasga o céu, sem trilha sonora aderente. O campo vasto, a vegetação pontiaguda, o tempo - ele mesmo repousando nestas paisagens - não passa, enclausura-se.
Quando desejamos expressar algo e não conseguimos.
Um ruído, uma distância posta entre aquilo que sabemos, o que sentimos e o que experimentamos e que, nem sempre, converte-se em interlocução bem sucedida.
As pedras respiram sem ruído. Conchas, pequenas algas, galhos sinuosos formam um conjunto de vestígios em solo arenoso que ensejam o desvendar de um delicado mistério, provas irrefutáveis de que mais ninguém além deles próprios estiveram ali.
Tudo, enfim, é seduzido a um “não dito” do qual as imagens são testemunha. Esfinges tácitas que portam enigmas cujos dilemas não saberemos. Neste trabalho, as imagens são línguas mortas que não aprendemos a falar.